Até quando vai este povo que se diz de grandes feitos na sombra dos "descobrimentos" perpetuar os "encobrimentos"que à eternidade vão levando uma geração de políticos mais falidos de moral que o país de capital?
Até quando o "medo" enquistado nestas gentes por anos de governança de gente triste e tirana do Vimieiro os vai manter entorpecidos na condição do "assim-assim", "nem bem, nem mau" e do "vai-se andando"?
Até quando vai este povo ser levado por imberbes que fazem carreiras nas "jotinhas" a desfraldar bandeirinhas e a cantar a compasso o refrão encomendado?
Até quando vão os partidos "produzir" líderes feitos-à-medida numas universidades de má fama e trabalhados em empresas subsidiárias em vez de nos apresentarem "gente" sem máscaras ou make-up?
Até quando vai este povo brando assistir sereno às medidas disruptivas dos seus governantes que nos chegam de scooter para saírem de A7?
Até quando vamos deixar que se destrua o estado social que tem sido a nossa "cola" social desde o 25 de Abril?
Até quando nos vamos deixar espezinhar à "boleia"de um reich económico cozinhado nas nossas europeias barbas?
Até quando seremos esmagados por dívidas contraídas para financiar os bancos que nos levam as casas e as calças?
Até quando assistiremos ao discorrer de um sem-fim de notícias sobre fortunas duvidosas de ex e actuais políticos que se tornam inconsequentes perante a apatia geral?
Até quando vamos pagar tudo o que usamos e continuar a pagar impostos?
Num país de serviços, em que vamos pagar a saúde e as estradas, a justiça e o gasóleo, o pão e a luz, a educação e o gás, para que serve o estado?
Era uma vez uma escola chamada euro onde estudavam 17 meninos. Um dia, os 17 meninos decidiram criar um sistema de empréstimos de emergência entre si. Como todos se achavam mais espertos que os outros, todos concordaram.
Quando um menino despistado, conhecido como o Grego, perdeu a carteira teve de pedir ajuda para não ficar sem dinheiro para o almoço. Vieram os meninos mais fortes e mais ricos e até veio um menino de outra escola com experiência neste tipo de coisas, um tal de FMI. Acordaram que lhe emprestavam dinheiro, mas ele tinha de pagar juros e de mudar umas coisas lá em casa... O menino lá foi almoçando e pedindo dinheiro aos pais para poder pagar os empréstimos aos outros meninos, mas os pais do menino foram avisando que não lhe davam mais dinheiro. E ele teve de pedir ainda mais aos colegas da escola para almoçar e quando tinha de pagar o que devia, como não tinha, pedia novamente mais emprestado.Os meninos ricos e fortes foram fazendo cada vez mais bullying, pressionando e ameaçando o menino até que um dia ele fartou-se. Virou-se para eles e disse que ia contar tudo aos pais e que lhes ia perguntar o que devia fazer.
Os meninos ricos e fortes começaram a ameaça-lo ainda mais e a dizer que assim ele e os pais iam ser expulsos da escola. Ora acontece que outros dois meninos despistados também tinham perdido a carteira e também andavam a pedir emprestado na escola e dinheiro extra aos pais. A diferença é que esses pais, até à data, davam-lhes dinheiro sem refilar muito. E constava também que havia mais meninos despistados que, em breve, iam ficar sem dinheiro para almoçar.
Um desses meninos, conhecido como o Tuga, estava agora muito assustado porque também tinha emprestado dinheiro ao Grego que não pagava e ele próprio tinha pedido dinheiro emprestado aos colegas e, por isso, tinha de pedir ainda mais aos pais para suportar tudo. Os pais eram conhecidos por serem pessoas de brandos costumes, mas ainda assim ele não sabia como iriam reagir se tivesse de pedir ainda mais. Principalmente se começasse a constar entre os pais de todos os meninos que havia chatices na escola e que, ao contrário do que os pais pensavam, os meninos andavam a tentar ganhar dinheiro às custas uns dos outros em vez de se ajudarem entre si. Ele sabia que os seus pais eram os mais pobres dos 17 da escola e era com muito sacrifício que já lhe davam o que tinha.
Sempre gostava de saber o que decidiriam os pais dos 17, e não os meninos, se fossem chamados a intervir e se fossem esclarecidos sobre o que realmente se estava a passar na escola. Não perca as cenas dos próximos episódios num blogue perto de si ...
Em 1964, o psicólogo Stanley Milgram procurou perceber de que forma é que as pessoas tendem a obedecer às autoridades quando as suas ordens são eticamente reprováveis. A experiência pretendia explicar os crimes do tempo do Nazismo. Em 1964, os resultados mostraram que 1 em cada 3 dizia 'não'. Numa reedição do estudo, verifica-se que 1 em cada 6 diz 'não'. Estaremos a perder o sentido ético da vida? Estaremos a perder a capacidade de reagir e dizer 'não' perante a injustiça? O que se passa com a nossa sociedade?
Não seria possível integrar a gestão das pousadas e afins na gestão do património? E os subsídios às associações desportivas à segurança social que já tem experiência de financiamento às IPSS's? Não se pouparia bem mais do que os 40 milhões de euros que se pretende poupar na educação ao acabar com a disciplina de TIC, enviando para o desemprego 3.000 professores? Já agora, uma vez que no 9º ano a maioria dos alunos já sabe ler e escrever, porquê insistir numa disciplina de português? Essa também se podia dispensar. Assim como o secretário de Estado da juventude e do desporto que em vez de desenvolver políticas de juventude (coisa que nunca existiu neste país) propõe aos 27% de jovens desempregados que emigrem! Uma qualquer ANJE faz mais pelos jovens do país do que uma secretaria de Estado da juventude e do desporto. Acabem de vez com coisas que só servem para gerar zonas de conforto a políticos de carreira. Ou então apresentem políticas de juventude e de desporto sérias.
Vivemos em tempos de austeridade e de incerteza. E como em todos os tempos de incerteza e de inquietação há uma minoria que pretende manter o controlo sobre vários aspectos político-económicos em que vivemos e essa minoria tem uma arma de inacção maciça - o medo. E, não tenhamos ilusões, quem faz uso dessa arma também não sabe o que vai acontecer amanhã.
São cada vez mais as teorias de conspiração e os alertas de que coisas como o facebook são perigosas porque mostram o que pensamos. Tenham medo, tenham muito medo - eles andam aí. Eles sabem quem somos, o que pensamos, e eles controlam tudo! Talvez por medo até já há uns que usam máscaras nos protestos ...
O medo sempre foi, e sempre será, a única arma usada por quem quer explorar os outros. Já uns quantos rufias mo tentaram fazer nas 'ilhas' perto da escola primária. Desde essa altura que só conheço uma forma de lidar com o medo - dizer-lhe: Não.
Não pensar é o verdadeiro perigo. Pensar e não o partilhar é o grande erro. Não agir é a inevitável derrota antecipada. É perder tudo quanto poderia ser sem que nunca o tenha sido. É deixar que vingue apenas a vontade dos poucos, a vontade d'eles. Quem quer que eles sejam!
É tão simples quanto: um mundo diferente é possível. Um Portugal mais: democrático, prospero, justo e livre é possível. Um Portugal mais: ditatorial, empobrecido, injusto e opressor, também, é possível.
Tudo é possível.
Portugal será aquilo que uma maioria o deseje, o pense, o partilhe, o exija, o construa. Haja diálogo, haja debate, haja protesto, haja participação, haja coragem.
Enganámo-nos. Deixámo-nos enganar. "Eles" são nós. Somos todos nós nos pequeninos roubos ao Estado - desde a factura que não pedimos até todas as manifestações do nosso xicoespertismo enraízado.
Se dizemos que as coisas são brancas quando pequenas e pretas quando grandes, então não sabemos a diferença entre preto e branco. E de engano em engano, a nós e a todos (pois o Estado é isso mesmo) vamo-nos afundando, fechando os olhos ao inevitável. Alguns viveram um sonho que todos irão pagar e o que assumimos como certo será rapidamente levado ao som do cut back or else.
Temos motivos de estar revoltados com a impunidade e desresponsabilização em Portgual. Com o sistema financeiro. Com a falta de regulamentação e fiscalização. Mas devemos estar revoltados connosco também.
Onde deixámos a cidadania? Onde deixámos o dever de protesto perante a injustiça?
Somos vítimas sim mas também somos os nossos carrascos. Melhor, o nosso veneno - corroendo lentamente o tecido social até que de pobre em pobre, fiquemos todos afogados na miséria do que devíamos ter feito e ter dito.
Será que usámos a liberdade de expressão de que ainda dispomos, pela qual tantos se bateram, da melhor maneira? Esquecemo-nos de que quanto mais liberdade temos, mais responsabilidade também? Queremos mesmo atacar o sistema democrático pela nossa inépcia?
Vivemos sempre em crise. Temos que viver em crise. Aliás não vivemos em crise suficiente. Crise de consciência, da necessidade de intervir, essencialmente de valores.
Os valores que contam hoje em dia para muitos, aqueles que o dinheiro compra - são aqueles que muitos não vão poder ter, ainda bombardeados pelas imagens do que deveriam ter ou ser.
A mudança de valores vai-se impôr pela privação e consequente necessidade. E essa sim, é a Mãe das oportunidades de mostrarmos que sabermos ser e fazer mais e melhor. E note-se: em conjunto porque iremos redescobrir a força da união de esforços. Sejamos optimistas! E no caminho tentar ajudar quem já não tem o suficiente para o ser.
O que precisava de ser escrito para que Portugal o seja, já foi.
Foi no século XIX, mas ainda não se deu amudança necessária. Lembremos o que é agora, como há 140 anos o era:
Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte- (Eça de Queirós, in Farpas 1872)
Amanhã, sábado, dia 15 de Outubro, estarei novamente na Batalha porque as questões de fundo que metastizaram no nosso país ainda não foram abordadas sequer. Não basta mudar as mascaras dos governantes.
Uma auditoria às contas públicas seria um bom passo no caminho certo. Vamos lá clarificar o que precisa de ser clarificado. Esta austeridade toda é para pagar o quê e a quem? O povo da Islândia é um exemplo. Esse é o caminho pelo qual acredito que vale a pena sair à rua e lutar pacificamente. O caminho da seriedade.
Ontem, mais uma vez, tivemos a possibilidade de nos livrarmos de mais um dos muitos políticos responsáveis pela crise actual. Há décadas que vivemos acima das nossas possibilidades, à base de empréstimos, negócios fajutos e dívidas escondidas. Foi o nosso 'modus operandi' durante muito tempo. Continua a sê-lo em muitos sítios. 'Não está orçamentado? Não faz mal, alguém pagará no fim. O orçamento é pequeno? Adjudica-se em menor valor e depois derrapa-se. Ficas com a obra se uma parte do pagamento vier para o partido!'
Sempre que as derrapagens, os negócios obscuros e as falcatruas vêm a público o que é que acontece? Se fôssemos um país decente (estilo nórdico), os autarcas/políticos/administradores públicos pediriam logo demissão do seu cargo ou suspensão até averiguação da situação. Em Portugal, vão para tribunal e não lhes acontece nada devido ao princípio da inocência até prova em contrário. Pois... Mas quando se dá como provados os crimes/gestão danosa, metem recurso para as instâncias superiores. E nada lhes acontece até acabarem os recursos dos recursos. E se algum juiz até é irmão maçónico até mantém o processo pendente até ao último dia legal de resposta...
Era fácil legislar de modo a que um autarca/político/administrador público ficasse suspenso de funções e/ou não pudesse candidatar-se de novo a partir do momento em que houvesse fortes indícios de corrupção. Inocência até prova em contrário e fuga à prisão enquanto se pode até se admite, mas deixar continuar a exercer o poder que levou a essa corrupção/gestão danosa??? Fácil de legislar... Mas quem é que faz essa legislação? Pois... São os políticos.
Mais uma vez o Presidente da República Portuguesa faz a apologia do nosso passado, para nos exortar a enfrentar os sacrifícios presentes, no seu discurso. Parece-me um bom principio olhar o passado para pensar o presente e o futuro. Mas, também me parece que o devemos fazer sem ilusões. Temos de conhecer, verdadeiramente, a nossa história. Temos de nos confrontar com a nossa herança. A nossa vergonhosa herança. Aquela de que nunca se fala.
Comecemos por reconhecer que somos os descendentes de colonizadores, de comerciantes de escravos. De pessoas que viveram na miséria por serem governadas por uma elite, que viveu do ouro do Brasil e de vidas escravizadas e vendidas como mercadoria, e que não soube investir no seu país. Esbanjou. Não fomos os únicos, seguramente. Importa perceber o real significado de ‘demos novos mundo ao mundo’ e ‘iniciamos a globalização’. Sim, iniciamos o comercio transatlântico de escravos e vivemos dos recursos de plantações em África e no Brasil construídas por escravos. E fomos o último país europeu a deixar esse modo de vida -1974! Onde está o orgulho nisso?
Que país tínhamos há 101 anos? Que infraestruturas? Um país analfabeto e oprimido por uma elite habituada a viver na abundância e no esbanjamento de recursos que navegavam, como que por milagre e desígnio divino, até ao Tejo. O resto era paisagem. Essa é a nossa real herança.
Não se trata de ter uma visao pessismista anti-Portugal. Trata-se de encarar as coisas como foram e como são. Sem atirar areia para os olhos. Sem ilusões. O nosso passado como nação tem tanto de heroico nas vidas comuns do seu povo como de vergonhoso na inépcia dos seus governantes. E o passado recente não será muito diferente do passado glorioso.
Onde estão as nossas prioridades agora que não temos, nem ouro do Brasil, nem colónias em África? A criar estádios de futebol em vez de investir nas nossas Universidades? A sério, no futebol!? Mas quem é que se acomodou? A jovem geração que estudou e que se qualificou como nunca neste país? Mas como é que podemos confiar o leme aos mesmos que nos trouxeram aqui? Sim, senhor Professor, recordo-lhe, o senhor foi primeiro ministro durante 10 anos. Lembra-se dos números da sua governação? E já que condecora os jogadores de futebol sub20 como Cavaleiros da Ordem do Infante Dom Henrique, tenho algumas perguntas para si:
Acredita mesmo que são eles que nos tirarão da crise? Que nos darão exemplos de vidas regradas e poupadas, acrescentando valor à nossa economia? Que irão ajudar a encontrar as soluções para os nossos problemas? Ou será que são as comunidades da diáspora, como curiosamente lhes chama, talvez a comunidade portuguesa emigrante que ajudou a construir o Luxemburgo? Ou os jovens investigadores que se destacam nas universidades estrangeiras porque não têm cá universidades e centros de investigação com recursos onde se destacar? Que lhe parece senhor Presidente? Mesmo, sem ilusões.
O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.
O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.
No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.
O preço dessa narrativa de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.
A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. Para responder às novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de investimento divino, precisamos de intervenção de poderes que estão para além da força humana. O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.
Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.
Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente limiar de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.
Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas incomodas como estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilião e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?
Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo. Num planeta que imaginamos como uma única aldeia, a realidade mais globalizada é a miséria.
O preço dessa narrativa de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.
Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. Não há aqui nenhum laivo de feminismo, nenhum paternalismo dos que dizem cuidar dos chamados grupos vulneráveis. A verdade é que sobre metade das pessoas que estão nesta sala pesa uma condenação antecipada pelo simples facto de serem mulheres.
A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de legalidade.
É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.
Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas aprendemos a reduzir os sonhos e esperanças para um tamanho aceitável. Acerca dessa histeria colectiva, Eduardo Galeano escreveu o seguinte:
Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.
E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.