
Há muito a discutir e lições a tirar da campanha de 'gestão' da gripe A (não só da campanha de vacinação, mas da gestão do problema desde o início). Mas esta discussão deve ser técnica e não política. Pelo menos os políticos deviam ter vergonha em vir inquirir a desgraçada da ministra da saúde.
Acho estranho que a ministra seja posta em cheque por causa da 'compra excessiva de vacina', quando as mesmas vozes há uns meses atrás a inquiriam se 'achava correcto comprar vacina para apenas um terço da população'. Preso por ter cão, preso por não ter.
Se a reacção do ministério e da DGS fosse relativizar a gravidade da doença,
ad inicium, não tomando grandes medidas profiláticas nem fazendo uma campanha agressiva, tinha caído o carmo e a trindade à primeira vítima mortal da gripe.
De lembrar que a campanha de profilaxia e vacinação da gripe A não diferiu muito, em termos de estratégia da DGS, das campanhas para qualquer gripe sazonal (vacinação de grupos de risco e insistência de regras básicas de higiéne - o lavar as mãos). A grande diferença foi o foco que a comunicação social, e daí a população em geral, deram à questão. A DGS limitou-se a 'aproveitar' a boleia deste veículo de informação. E bem. Conseguiram-se ganhos enormes em gestão de comportamentos e instalações (as escolas passaram a ter sabão nas casas de banho, as pessoas passaram a usar lenços descartáveis e a lavar as mãos após lhes tussirem, etc).
Do ponto de vista de vacinação, a estratégia foi a mesma de sempre. Identificação de grupos de risco, prioritização de vacinação (porque não há capacidade nunca de se vacinar toda a gente ao mesmo tempo). A única diferença desta campanha foi não se pôr a vacina no circuito comercial por medo de assambarcamento (devido ao pânico generalizado que havia, por muito que se tentasse relativizar) da vacina e que estas não chegassem a quem precisava (grupos de risco), mas aos mais hábeis. Todos os anos, sobram vacinas da gripe sazonal. A diferença é que o risco e 'prejuízo' (entre aspas pois o lucro é sempre enorme) na vacina sazonal é das farmácias. Nesta gripe A passou a ser do estado. Mas o caos teria sido enorme, se assim não fosse. E mais uma vez cairia o carmo e a trindade.
Por outro lado, cada morte por gripe A, com ou sem factores de risco de complicações, foi noticiada
ad nauseum, e a dor normal de cada família enlutada foi partilhada por uma preocupação generalizada, quase pânico. Mas para a DGS e profissionais de saúde no geral esses desfechos mortais são esperados (para a gripe A e sazonal).
Se há reflexões a tirar será a do reflexo financeiro nos estados da falta de ética jornalística, da capacidade desta causar pânico, no reflexo deste pânico nos serviços de saúde. Foi a primeira vez que tentámos jogar o jogo com as regras do lado de lá. Temos muito a aprender, mas foi uma boa experiência.